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Maratona e Treinos Prolongados: Quais os Impactos no Nosso Corpo?

Correr 10, 20 ou 30 quilômetros já é desafiador — imagine, então, percorrer os 42.195 km de uma maratona. Essa prova representa uma exigência extrema ao organismo humano, especialmente devido às elevadas demandas impostas a múltiplos sistemas fisiológicos.

Os efeitos da corrida de longa duração, tanto do treinamento quanto da própria maratona, pode ser analisados por sistema. Por exemplo, no que tange os aspectos cardiovasculares, atletas de endurance, como maratonistas, apresentam um perfil cardiometabólico significativamente mais favorável em comparação a indivíduos sedentários da mesma faixa etária. De modo geral, esses atletas exibem níveis mais baixos de colesterol LDL e triglicerídeos, além de concentrações mais elevadas de colesterol HDL. Paralelamente, possuem valores reduzidos de pressão arterial e frequência cardíaca em repouso, o que contribui para a proteção cardiovascular e vascular sistêmica.

É bem estabelecido que o exercício aeróbico intenso e prolongado promove adaptações cardíacas fisiológicas conhecidas como “coração de atleta”, caracterizadas por aumento proporcional dos volumes dos ventrículos esquerdo e direito, espessamento da parede ventricular esquerda e incremento da massa miocárdica. Essas alterações estruturais resultam em melhor função diastólica e aumento do débito cardíaco durante o exercício. Além disso, a prática regular do treinamento endurance de longa duração modifica o funcionamento do sistema nervoso autônomo, promovendo maior predominância vagal e menor atividade simpática. Isso se reflete na menor frequência cardíaca de repouso observada em atletas. 

Todavia, a corrida de longa distância também impõe estresse substancial ao sistema cardiovascular e, por isso, sua prática, desde treinos à própria competição, deve ser monitorada por profissionais habilitados.

Considerando o sistema renal, especificamente, o balanço hídrico, um fator crucial durante os exercícios de longa duração, é possível verificar em até 1/5 dos maratonistas a hiponatremia associada ao exercício físico (HAE). Desequilíbrios hidroeletrolíticos são comuns durante competições de corrida de longa distância, com o sódio sendo o eletrólito mais frequentemente afetado, especialmente em função das alterações no volume plasmático. A variação na incidência desses distúrbios é ampla na literatura, em grande parte devido a fatores ambientais como o calor. A HAE é uma condição multifatorial, sendo mais frequentemente associada à ingestão excessiva de líquidos durante a prova. Logo, é necessário considerar a adequada reposição de eletrólitos, especialmente o sódio, sobretudo quando atletas treinarem ou competirem em locais quentes e secos, que favorecem maior perda hídrica e, por consequência, de sódio. É interessante destacar que as alterações no balanço hídrico impactam diretamente outros sistemas, como veremos à frente no sistema gastrointestinal.

O trato gastrointestinal desempenha um papel fundamental em corridas de longa distância, sendo responsável pela absorção e entrega dos nutrientes para o músculo esquelético, especialmente, a glicose. No entanto, trata-se de um sistema sensível, frequentemente afetado pelo estresse fisiológico do exercício prolongado. Atletas de endurance, como maratonistas, comumente relatam sintomas gastrointestinais durante ou após as provas, o que pode comprometer tanto a performance quanto a adesão às estratégias nutricionais planejadas.

O exercício físico exerce diversos efeitos benéficos sobre o sistema gastrointestinal. A prática regular melhora a motilidade intestinal e pode acelerar o tempo de trânsito gastrointestinal, favorecendo a evacuação e prevenindo o acúmulo excessivo de resíduos fecais e gases no lúmen intestinal. Esses efeitos contribuem para uma melhor função digestiva e podem reduzir a ocorrência de desconfortos abdominais em repouso.

Por outro lado, apesar dos benefícios do exercício moderado sobre o trato gastrointestinal, atividades de alta intensidade ou de longa duração, como a maratona, estão frequentemente associadas a efeitos adversos nesse sistema. De fato, os sintomas gastrointestinais estão entre as queixas mais comuns durante corridas de longa distância. Estudos indicam que entre 20% e 57% dos maratonistas relatam pelo menos um episódio de desconforto gastrointestinal durante a prova, o que pode incluir náuseas, dor abdominal, urgência para evacuar, diarreia ou distensão abdominal. Esses sintomas podem comprometer o desempenho e, em casos mais severos, levar à interrupção da corrida. Embora a etiologia desses sintomas não seja completamente elucidada, diversos mecanismos fisiológicos têm sido propostos.

Durante o exercício intenso, ocorre um redirecionamento do fluxo sanguíneo dos órgãos viscerais para os músculos em atividade, resultando em uma redução de até 80% do fluxo esplâncnico. Essa hipoperfusão pode induzir isquemia na mucosa intestinal, aumentando sua permeabilidade e favorecendo a translocação bacteriana e a liberação de endotoxinas, fatores associados ao aparecimento de diarreia. Além disso, o impacto mecânico da corrida, com vibrações e deslocamentos intestinais, pode agravar a irritação do trato gastrointestinal.

Interessantemente, a desidratação é outro fator de risco relevante. Ela está associada ao retardo do esvaziamento gástrico e ao aumento da incidência de sintomas gastrointestinais. Um estudo observou que 80% dos corredores que perderam mais de 4% do peso corporal relataram cólicas abdominais. Além disso, a absorção limitada de carboidratos durante o exercício pode contribuir para o desconforto gastrointestinal. Isso ocorre porque a absorção de glicose no intestino depende da densidade e atividade dos transportadores SGLT1, cuja capacidade máxima gira em torno de 60 g/h. No entanto, recomenda-se uma ingestão de aproximadamente 90 g/h de carboidratos para otimizar o desempenho físico na maratona, o que pode gerar sintomas como distensão abdominal devido à má absorção. Ainda, com uma má absorção e, por consequência, entrega de glicose ao músculo esquelético, é possível que não haja disponibilidade adequada desse substrato para a maratona, principalmente se o atleta iniciar a prova com estoques de glicogênio muscular e hepático reduzidos.

O sistema musculoesquelético desempenha, sem dúvida, um papel central durante o treinamento e a corrida de maratona, sendo submetido a exigências biomecânicas intensas ao longo dessas atividades. Para sustentar o esforço prolongado, é necessário que esse sistema suporte cargas elevadas e repetitivas, tanto nos treinos quanto na prova em si. O exercício endurance promove diversas adaptações no sistema musculoesquelético, com efeitos positivos e negativos. Entre os benefícios, destaca-se o aumento da densidade mineral óssea, especialmente quando o estímulo é progressivo e controlado. Por outro lado, a prática intensa e prolongada da corrida de longa distância também está associada a um risco elevado de lesões por sobrecarga, como fraturas por estresse, tendinopatias e dores articulares. 

Nas últimas décadas, o impacto do exercício aeróbico sobre a função musculoesquelética tem sido amplamente investigado, com foco tanto na otimização da performance quanto na prevenção de lesões, destacando a importância de estratégias de treinamento individualizadas e do acompanhamento profissional para promover adaptações estruturais benéficas e reduzir os riscos associados.

Um estudo com maratonistas iniciantes identificou um aumento de 48% no consumo de oxigênio muscular (V̇O₂ muscular) após o período de treinamento para maratona, mesmo na ausência de alterações no V̇O₂máx. Esse achado indica adaptações metabólicas significativas no tecido muscular esquelético, reforçando o impacto do treinamento de endurance sobre a eficiência metabólica local. Além disso, o treinamento para maratona promove adaptações nas fibras musculares e na atividade de enzimas metabólicas, favorecendo um maior uso de vias oxidativas e melhorando a capacidade de resistência muscular. Essas mudanças refletem uma otimização do metabolismo energético nos músculos ativos, contribuindo para o desempenho sustentado durante esforços prolongados.

Os músculos esqueléticos de corredores de endurance apresentam predominância de fibras do tipo I (de contração lenta) em relação às fibras do tipo II (de contração rápida). As fibras do tipo I são mais eficientes na utilização das vias aeróbias de produção de energia, o que confere vantagem no desempenho em provas de longa duração. Estudos mostram que atletas com maior proporção de fibras tipo I tendem a obter resultados melhores em eventos de endurance. Apesar das adaptações benéficas promovidas pelo treinamento de endurance, o sistema musculoesquelético também está sujeito a diversos efeitos adversos. As lesões relacionadas à corrida estão entre os problemas mais comuns e limitantes do desempenho em maratonistas, tanto em treinos quanto durante as provas.

A incidência dessas lesões é bastante variável, oscilando entre 18,2% e 92,4%, de acordo com diferentes estudos e populações. Em média, cerca de 56% dos corredores recreacionais e até 90% dos atletas em preparação para maratonas apresentam pelo menos uma lesão musculoesquelética relacionada à corrida ao longo do ano. A maioria dessas lesões tem origem em sobrecarga crônica e afeta predominantemente os membros inferiores — especialmente a região abaixo dos joelhos, que representa aproximadamente 70% de todas as lesões observadas em corredores de endurance. Essas lesões incluem condições como síndrome da banda iliotibial, tendinopatias, fascíte plantar e fraturas por estresse, podendo comprometer significativamente a continuidade do treinamento e a performance do atleta.

Finalmente, as cãibras musculares associadas ao exercício são um problema frequente entre corredores durante eventos de endurance, como maratonas, com incidência estimada de 18% durante a prova e prevalência ao longo da vida variando entre 30% e 50%. Diversas hipóteses têm sido propostas para explicar sua origem, incluindo desequilíbrios eletrolíticos e desidratação. No entanto, evidências recentes mostram que não há correlação significativa entre alterações sistêmicas de eletrólitos e a ocorrência de cãibras, o que sugere que essas causas não são as principais responsáveis.

As cãibras geralmente ocorrem em grupos musculares específicos que sofrem maior estresse durante a atividade, o que reforça a ideia de um mecanismo local, e não sistêmico. Atualmente, a teoria mais aceita aponta para um descontrole neuromuscular, no qual há um desequilíbrio entre os sinais excitatórios e inibitórios no controle motor, resultando em contrações espasmódicas e involuntárias.

Entre os fatores de risco associados à ocorrência de cãibras em maratonistas estão idade mais avançada, índice de massa corporal (IMC) mais elevado, histórico familiar de cãibras e hábitos inadequados de alongamento, como sessões muito curtas ou irregulares. Essas variáveis devem ser consideradas na prevenção e no manejo das câimbras em corredores de longa distância.

Em suma, a maratona impõe um estresse significativo ao organismo dos atletas, provocando uma série de alterações fisiológicas agudas e crônicas. No sistema cardiovascular, observam-se adaptações positivas como menor frequência cardíaca de repouso e maior débito cardíaco, mas também potenciais riscos, como elevação de biomarcadores cardíacos e arritmias. No trato gastrointestinal, são comuns sintomas como náusea, diarreia e desconforto abdominal, devido à redução do fluxo esplâncnico, alterações hormonais e desidratação. No sistema musculoesquelético, há benefícios como melhora no metabolismo muscular e possível proteção contra osteoporose, porém também são frequentes lesões por sobrecarga, como tendinopatias e fraturas por estresse. O exercício prolongado pode causar hiponatremia associada ao exercício, frequentemente relacionada à hidratação excessiva. Além disso, cãibras musculares são comuns e têm sido atribuídas a desregulação neuromuscular. Logo, embora a maratona traga diversas adaptações benéficas, ela também representa riscos que exigem monitoramento e estratégias preventivas adequadas.

 

Referências:

Braschler L, Nikolaidis PT, Thuany M, et al. Physiology and Pathophysiology of Marathon Running: A narrative Review. Sports Med Open. 2025;11(1):10. Published 2025 Jan 27. doi:10.1186/s40798-025-00810-3


Autor:

Mombora

Consumir um produto Mombora é, também, promover a biodiversidade, incentivar a regeneração das florestas, cuidar do meio ambiente e apoiar as melhores práticas em toda a cadeia.

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