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Por que não faz sentido usar géis de carboidrato com isomaltulose (Palatinose®)?

Por Marcus Quaresma, Nutricionista, M.Sc. Ph.D.

A isomaltulose é um dissacarídeo composto por uma molécula de glicose e uma de frutose, assim como a sacarose. A diferença central entre ambas reside no tipo de ligação glicosídica. Na sacarose, glicose e frutose estão ligadas por uma ligação α-1,2, enquanto na isomaltulose essa ligação é α-1,6. Essa modificação estrutural reduz substancialmente a velocidade de hidrólise pela sacarase intestinal, tornando a digestão e a absorção da isomaltulose mais lentas, embora completas 

Como consequência direta, a isomaltulose apresenta baixo índice glicêmico e resposta insulínica atenuada quando comparada à sacarose, maltodextrina ou glicose. A elevação da glicemia ocorre de forma mais gradual e sustentada, sem picos pronunciados de insulina no período pós-prandial. Portanto, a diferença entre isomaltulose e sacarose não está no conteúdo energético, mas no ritmo de liberação e disponibilidade sistêmica da glicose.

Do ponto de vista teórico, a menor resposta glicêmica e insulínica da isomaltulose poderia favorecer um maior uso de lipídios como substrato energético durante o exercício, uma vez que níveis mais baixos de insulina reduzem a inibição da lipólise. De fato, alguns estudos mostram aumento da disponibilidade de ácidos graxos livres e maior taxa de oxidação de gordura durante exercícios prolongados quando a isomaltulose é ingerida, em comparação a carboidratos de rápida absorção.

Esse perfil metabólico levou à hipótese de que a isomaltulose poderia poupar glicogênio muscular e, teoricamente, prolongar a capacidade de exercício em atividades de longa duração. No entanto, essa vantagem metabólica não se traduz necessariamente em maior aporte energético ao músculo esquelético quando a demanda por glicose é elevada, sobretudo em intensidades moderadas a altas. Além disso, estudos controlados mostram que, apesar de alterações pontuais na oxidação de substratos, não há diferenças consistentes na oxidação total de carboidratos ou na preservação funcional do glicogênio muscular ao longo do exercício.

Assim, o potencial ergogênico baseado exclusivamente em maior oxidação de gordura permanece teórico e dependente do contexto metabólico, da intensidade do exercício e do estado nutricional prévio.

Apesar das alterações metabólicas observadas, a maior parte dos estudos não demonstra melhora do desempenho físico com a ingestão de isomaltulose. Ensaios controlados em corrida, ciclismo e exercício intermitente mostram desempenho semelhante ou inferior quando comparado a glicose, maltodextrina ou misturas de carboidratos rapidamente absorvíveis.

Em estudos de ciclismo prolongado, a ingestão contínua de isomaltulose aumentou a oxidação de gordura, mas resultou em pior desempenho em provas contra o relógio, com tempos significativamente mais lentos em comparação a misturas de frutose e maltodextrina. Esse prejuízo foi acompanhado por maior desconforto gastrointestinal, incluindo distensão abdominal, cólicas e náuseas, atribuídos à digestão lenta e à permanência prolongada do carboidrato no trato gastrointestinal.

Além disso, a taxa reduzida de oxidação de carboidratos exógenos com a isomaltulose limita a capacidade de fornecer glicose rapidamente ao músculo esquelético, o que é crítico em momentos de aumento da intensidade, sprints finais ou exercícios intermitentes de alta demanda energética. Estudos mostram que apenas cerca de metade da isomaltulose ingerida é oxidada durante o exercício, valor substancialmente inferior ao observado com sacarose ou maltodextrina.

Em conjunto, os estudos indicam que a isomaltulose é um carboidrato de digestão lenta, com baixo índice glicêmico, capaz de modular a resposta metabólica ao exercício ao favorecer maior oxidação de gordura. Contudo, essa característica não se traduz em melhora consistente do desempenho físico. Pelo contrário, em exercícios prolongados ou de maior intensidade, a limitação na entrega rápida de glicose ao músculo esquelético e o aumento do desconforto gastrointestinal podem comprometer o rendimento. Assim, a isomaltulose não se apresenta como uma estratégia ergogênica superior aos carboidratos de rápida absorção em contextos esportivos onde a performance é o desfecho primário.

À luz das Diretrizes de Prática Clínica em Nutrição Esportiva da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva, a interpretação dos achados sobre a isomaltulose deve ser feita com cautela e alinhada ao princípio central de adequação do carboidrato à demanda energética do exercício. As diretrizes são claras ao recomendar que a ingestão de carboidratos seja ajustada em função do tipo de modalidade, intensidade, duração do esforço e objetivo do atleta, priorizando estratégias que sustentem o desempenho físico e a disponibilidade energética ao longo do exercício.

No contexto esportivo, especialmente em exercícios de moderada a alta intensidade ou em modalidades intermitentes, a prioridade deve ser garantir oferta rápida e suficiente de glicose ao músculo esquelético, condição essencial para manutenção da potência, da capacidade de sprint e da performance global. Nesse sentido, carboidratos de rápida digestão e absorção apresentam melhor respaldo científico quando o desfecho primário é o desempenho físico.

A isomaltulose, embora apresente perfil metabólico distinto, com menor resposta glicêmica e maior estabilidade da glicemia, não é classificada como suplemento ergogênico com evidência robusta para melhora de desempenho. As diretrizes reforçam que suplementos ou estratégias nutricionais com benefícios incertos ou inconsistentes não devem ser priorizados quando comparados a abordagens já consolidadas, sobretudo se houver risco de desconforto gastrointestinal ou prejuízo funcional.


Referências:

Notbohm HL, Feuerbacher JF, Papendorf F, Friese N, Jacobs MW, Predel HG, et al. Metabolic, hormonal and performance effects of isomaltulose ingestion before prolonged aerobic exercise: a double-blind, randomised, cross-over trial. J Int Soc Sports Nutr. 2021;18(1):38.

Rowlands DS, Houltham S, Musa-Veloso K, Brown F, Paulionis L, Bailey D. Fructose-Glucose Composite Carbohydrates and Endurance Performance: Critical Review and Future Perspectives. Sports Med. 2015;45(11):1561–76.

Oosthuyse T, Carstens M, Millen AM. Ingesting Isomaltulose Versus Fructose-Maltodextrin During Prolonged Moderate-Heavy Exercise Increases Fat Oxidation but Impairs Gastrointestinal Comfort and Cycling Performance. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2015;25(5):427–38.

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Takada S, Otsuka J, Okamoto Y, Watanabe D, Aoki M, Fujii N, et al. Effects of ingestion of isomaltulose beverage on plasma volume and thermoregulatory responses during exercise in the heat. Eur J Appl Physiol. 2022;122(12):2615–26.

Quaresma MVLS, Trindade MCC, Oliveira EP, Dátillo M, Pimentel GD, Barros ARZ, et al. Clinical practice guidelines for sports nutrition: Brazilian Sports Nutrition Association. Journal of Physical Education. 2025;36:e3605.


Autor:

Marcus Quaresma

Nutricionista, Especialista em Nutrição Esportiva pela ASBRAN, Mestre, Doutor e Diretor Científico da ABNE.

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