Por que géis de carboidrato a base de frutas são mais seguros que os géis convencionais?
Por Marcus Quaresma, M.Sc. Ph.D.
A classificação dos alimentos segundo o grau e o propósito do processamento industrial permite compreender melhor as transformações recentes dos padrões alimentares e seus impactos à saúde. O sistema NOVA diferencia alimentos processados daqueles ultraprocessados não apenas pela presença de processamento, mas pela lógica industrial que orienta sua formulação. Alimentos ultraprocessados são definidos como formulações industriais compostas majoritariamente por substâncias extraídas de alimentos ou sintetizadas, associadas a diversos aditivos cosméticos, com pouca ou nenhuma preservação da matriz alimentar original. Esse tipo de produto tende a substituir alimentos in natura ou minimamente processados, alterando de forma estrutural a qualidade da dieta e o ambiente alimentar (1).
A discussão sobre alimentos ultraprocessados no esporte ganha um contorno particular quando se analisam os géis de carboidratos amplamente utilizados por atletas de endurance. Esses produtos ocupam uma zona cinzenta entre a necessidade fisiológica legítima de fornecer carboidratos rapidamente disponíveis durante o exercício prolongado e a exposição repetida a formulações altamente industrializadas, ricas em aditivos alimentares e estruturalmente distantes de “alimentos reais”.
Do ponto de vista funcional, os géis de carboidratos foram desenvolvidos para facilitar a ingestão de grandes quantidades de carboidratos por hora, contornando limitações práticas do consumo de bebidas ou alimentos sólidos durante o exercício. A literatura mostra de forma consistente que a ingestão de carboidratos exógenos, especialmente em exercícios acima de 60–90 minutos, melhora o desempenho ao manter a glicemia, poupar glicogênio muscular e sustentar altas taxas de oxidação de carboidratos. Misturas de glicose e frutose exploram transportadores intestinais distintos (SGLT-1 e GLUT-5), permitindo maiores taxas de absorção total e, em muitos casos, melhor tolerância do que fontes únicas.
No entanto, quando se observa a composição dos géis disponíveis comercialmente, emergem questões relevantes para a saúde gastrointestinal. Estudos demonstram enorme variabilidade entre produtos em termos de concentração de carboidratos, tipo de açúcares, densidade energética e, sobretudo, osmolalidade. Há géis com valores extremamente elevados, muito acima do plasma, o que pode retardar o esvaziamento gástrico e aumentar o risco de desconforto gastrointestinal, especialmente quando a ingestão hídrica é insuficiente. Esse aspecto já explica parte dos sintomas relatados por atletas, como náuseas, distensão abdominal, cólicas e diarreia durante provas longas (2).
Tradicionalmente, o desconforto gastrointestinal em atletas tem sido atribuído principalmente à ingestão de grandes quantidades de carboidratos, em especial à frutose, cuja absorção é limitada em parte da população. Evidências demonstram, contudo, que o intestino apresenta capacidade adaptativa significativa. Estratégias conhecidas como “treinamento do intestino”, com exposição progressiva a altas cargas de carboidratos durante os treinos, aumentam a expressão de transportadores intestinais e reduzem a incidência de sintomas em muitos atletas, ainda que uma parcela continue apresentando intolerância relevante, o que reforça a necessidade de individualização (3).
O ponto crítico frequentemente negligenciado é que os géis de carboidratos não são apenas fontes de glicose e frutose, mas produtos tipicamente ultraprocessados. Esses suplementos contêm diversos aditivos alimentares, como aromatizantes, corantes, edulcorantes artificiais, emulsificantes, reguladores de acidez e conservantes, cuja função é tecnológica e sensorial, não nutricional. A literatura recente aponta que a ingestão crônica de alimentos ultraprocessados e de determinados aditivos está associada à disbiose da microbiota intestinal, redução da diversidade bacteriana e comprometimento da barreira intestinal (3, 4).
Em atletas de endurance, esse efeito pode ser potencializado pelo próprio estresse fisiológico do exercício prolongado. A redistribuição do fluxo sanguíneo durante o exercício intenso provoca hipoperfusão esplâncnica, hipóxia intestinal e aumento da permeabilidade da mucosa. Quando esse ambiente vulnerável é combinado com ingestão repetida de produtos ultraprocessados ricos em aditivos, aumenta-se o risco de inflamação intestinal, endotoxemia transitória e sintomas gastrointestinais persistentes, fatores frequentemente associados à queda de desempenho e até ao abandono de provas (3).
Diferentemente da adaptação observada para a absorção de carboidratos, não há evidências consistentes de que o intestino se adapte de forma benéfica à exposição crônica a múltiplos aditivos alimentares. Estudos sugerem que emulsificantes, edulcorantes artificiais e conservantes podem exercer efeitos cumulativos e sinérgicos sobre a microbiota, favorecendo um estado de disbiose e aumento da permeabilidade intestinal, especialmente quando consumidos de forma repetida ao longo do tempo (3).
Dessa forma, embora os géis de carboidratos sejam ferramentas ergogênicas relevantes e, em muitos cenários, necessárias no endurance, é reducionista atribuir todo desconforto gastrointestinal apenas à glicose ou à frutose. Em atletas que utilizam grandes volumes desses produtos ao longo de treinos e competições, a natureza ultraprocessada dos géis e a carga de aditivos associados devem ser consideradas como potenciais fatores contribuintes para sintomas intestinais crônicos. Estratégias práticas incluem a escolha criteriosa de produtos com listas de ingredientes mais curtas, menor osmolalidade, menor número de aditivos, além de garantir que a base da dieta cotidiana seja composta majoritariamente por alimentos in natura ou minimamente processados, preservando a saúde intestinal como condição fundamental para o desempenho de longo prazo (1, 3).
Referências:
Monteiro CA, Cannon G, Levy RB, Moubarac JC, Louzada ML, Rauber F, et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutr. 2019;22(5):936–41.
Zhang X, O'Kennedy N, Morton JP. Extreme Variation of Nutritional Composition and Osmolality of Commercially Available Carbohydrate Energy Gels. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2015;25(5):504–9.
Alvarez-Herms J, Gonzalez-Benito A, Corbi F, Odriozola A. What if gastrointestinal complications in endurance athletes were gut injuries in response to a high consumption of ultra-processed foods? Please take care of your bugs if you want to improve endurance performance: a narrative review. Eur J Appl Physiol. 2024;124(2):383–402.
Rondinella D, Raoul PC, Valeriani E, Venturini I, Cintoni M, Severino A, et al. The Detrimental Impact of Ultra-Processed Foods on the Human Gut Microbiome and Gut Barrier. Nutrients. 2025;17(5).
Autor:
Marcus Quaresma
Nutricionista, Especialista em Nutrição Esportiva pela ASBRAN, Mestre, Doutor e Diretor Científico da ABNE.