Carboidratos durante o exercício: aspectos fisiológicos e práticos
Durante exercícios prolongados e intensos, o músculo esquelético depende significativamente dos carboidratos como substrato energético. As reservas endógenas (glicogênio muscular e hepático) são limitadas e, quando esgotadas, levam à fadiga e redução de performance. A ingestão exógena de carboidratos durante o exercício atenua esse esgotamento, mantendo a euglicemia e sustentando altas taxas de oxidação de carboidratos, fundamentais para a produção contínua de ATP.
As diretrizes atuais recomendam o consumo de:
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30–60 g/h de carboidratos para exercícios com duração entre 1 e 2 horas;
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Até 90 g/h para atividades com duração superior a 2,5 horas.
Essas doses devem considerar a osmolaridade da solução, geralmente entre 6-8% de carboidratos (g/100 mL) para otimizar a absorção sem causar desconforto gastrointestinal. Soluções mais concentradas (>10%) tendem a atrasar o esvaziamento gástrico e aumentar o risco de distúrbios gastrointestinais. A absorção intestinal de carboidratos é limitada pela saturação dos transportadores:
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SGLT1 (Sodium-Glucose Linked Transporter 1): responsável pela absorção de glicose e galactose.
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GLUT5: exclusivo para a absorção de frutose.
O SGLT1 se satura com ingestão de ~60 g/h de glicose, sendo este o limite para a oxidação exógena de glicose (~1 g/min). Para ultrapassar esse teto, a estratégia mais eficaz é a utilização de dos múltiplos transportadores de carboidratos, combinando glicose com frutose (em proporções de 2:1 ou 1:1), aproveitando diferentes vias de absorção. A combinação dos múltiplos transportadores permite:
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Aumento da taxa de oxidação de carboidratos (até 1,75 g/min, 65% maior que glicose isolada);
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Melhor tolerância gastrointestinal;
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Maior entrega de água e nutrientes ao plasma pela melhora na absorção intestinal;
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Melhora do desempenho físico em provas de endurance, com menor percepção de esforço e menor fadiga.
Uma maior taxa de oxidação exógena proporciona suprimento contínuo de glicose ao músculo, especialmente importante nas fases finais do exercício, quando as reservas de glicogênio estão comprometidas. Essa disponibilidade reduz a glicogenólise muscular, retarda a fadiga e mantém a capacidade contrátil do músculo esquelético.
Em suma, a ingestão de carboidratos durante o exercício físico é uma estratégia robusta para otimizar o desempenho esportivo. Para maximizar a entrega ao músculo esquelético e minimizar efeitos colaterais, é essencial respeitar limites de absorção intestinal, priorizar combinações de carboidratos com diferentes transportadores, ajustar a concentração da bebida à osmolaridade ideal, e considerar individualidades do atleta.
Referências:
ERMAK, Naomi M.; VAN LOON, Luc J. C. The use of carbohydrates during exercise as an ergogenic aid. Sports Medicine, Auckland, v. 43, n. 11, p. 1139–1155, 2013.
WILSON, Patrick B. Multiple transportable carbohydrates during exercise: current limitations and directions for future research. Journal of Strength and Conditioning Research, Philadelphia, v. 29, n. 7, p. 2056–2070, 2015.
Autor:
Marcus Quaresma
Nutricionista, Especialista em Nutrição Esportiva pela ASBRAN, Mestre, Doutor e Diretor Científico da ABNE.