Carrinho de Compras

0

O carrinho está vazio.

Ir para a loja
Faz sentido ter nitrato no gel de carboidratos?

Vamos entender juntos, por Marcus Quaresma, M.Sc. Ph.D.

A suplementação com nitrato (NO₃⁻) tem sido proposta como um recurso ergogênico sobretudo em modalidades de endurance, fundamentada em mecanismos fisiológicos bem descritos, mas com efeitos práticos que dependem fortemente do contexto, do tipo de teste e do perfil do atleta. 

O nitrato, abundante em vegetais folhosos verdes e em raízes como a beterraba, atua como precursor do óxido nítrico por meio da via nitrato–nitrito–óxido nítrico, uma rota alternativa e complementar à via clássica dependente da enzima óxido nítrico sintase. Após a ingestão, parte do nitrato é reduzida a nitrito por bactérias anaeróbias da cavidade oral e, posteriormente, esse nitrito pode ser convertido em óxido nítrico, especialmente em condições de hipóxia e acidose, que são características do exercício físico. 

O aumento da disponibilidade de óxido nítrico está associado à vasodilatação, melhora da perfusão muscular, otimização da relação oferta-demanda de oxigênio, modulação da função mitocondrial e possível redução do custo de oxigênio para uma determinada intensidade de esforço.

Apesar dessa base fisiológica consistente, os efeitos ergogênicos do nitrato não se manifestam de forma uniforme em todos os tipos de testes de desempenho, e isso precisa ser considerado para aplicações práticas.

A literatura demonstra que os benefícios são mais evidentes em protocolos de tempo até a exaustão, que são tarefas abertas, nas quais o indivíduo mantém uma carga fixa até não conseguir mais sustentar o exercício físico. Meta-análises indicam melhora pequena a moderada nesses testes, especialmente quando a suplementação é realizada de forma crônica por mais de três dias e com doses iguais ou superiores a 6 mmol por dia (372 mg). Esses protocolos parecem ser mais sensíveis a pequenas melhorias na eficiência metabólica e na tolerância fisiológica ao exercício prolongado. 

Em contraste, nos testes de time trial (contrarrelógio), que reproduzem de forma mais fiel o contexto competitivo ao exigir que o atleta complete uma determinada distância ou volume de trabalho no menor tempo possível por meio da autorregulação do ritmo, os efeitos do nitrato mostram-se substancialmente menos consistentes. Essa distinção é particularmente relevante, uma vez que o nitrato é amplamente utilizado em modalidades que se enquadram nesse modelo de esforço, como corridas de 5, 10, 21 e 42 km, bem como em outras modalidades de endurance, a exemplo do triatlo, nas quais o desempenho depende predominantemente da gestão do ritmo ao longo da prova.

A maioria das revisões sistemáticas mostra ausência de melhora significativa no desempenho médio em time trials, sugerindo que os ganhos fisiológicos sutis promovidos pelo nitrato nem sempre se traduzem em vantagem prática quando o pacing, a tomada de decisão e outros fatores regulatórios entram em cena.

Vale destacar que após a ingestão, o nitrato apresenta uma cinética relativamente lenta até exercer seus efeitos fisiológicos, o que constitui uma limitação prática importante para provas de longa duração. De modo geral, o pico de conversão do nitrato em nitrito e, subsequentemente, em óxido nítrico ocorre aproximadamente 2 a 3 horas após a ingestão, refletindo o tempo necessário para absorção intestinal, recirculação salivar, redução bacteriana na cavidade oral e posterior conversão sistêmica. Essa dependência da via enterossalivar faz com que o aumento da biodisponibilidade de óxido nítrico seja transitório e temporalmente bem definido. Em provas de longa duração, como maratonas, ultramaratonas ou eventos prolongados de triatlo, essa janela de maior disponibilidade de óxido nítrico tende a não coincidir de forma adequada com todo o período de esforço, o que limita o potencial impacto ergogênico do nitrato ao longo da prova. Além disso, à medida que o exercício se prolonga, fatores como depleção de substratos energéticos, desidratação, fadiga neuromuscular e desconforto gastrointestinal passam a ter papel predominante na determinação do desempenho, reduzindo ainda mais a relevância de um efeito fisiológico agudo e temporalmente restrito como o promovido pelo nitrato. Dessa forma, a cinética de conversão do nitrato em óxido nítrico ajuda a explicar por que essa estratégia apresenta utilidade limitada em provas de longa duração, apesar de sua base mecanística sólida.

Essa distinção é particularmente relevante quando se analisam provas como a maratona e a ultramaratona. Do ponto de vista fisiológico e competitivo, essas provas se comportam muito mais como grandes time trials do que como testes de exaustão. O atleta não compete até a falha fisiológica, mas gerencia cuidadosamente o ritmo ao longo de horas, equilibrando intensidade, disponibilidade de substratos, hidratação, função gastrointestinal, fadiga neuromuscular e aspectos psicológicos. Nesse cenário, mesmo que o nitrato promova uma discreta melhora na eficiência do uso de oxigênio ou na perfusão muscular, esses efeitos podem ser diluídos pela complexidade do controle do esforço em provas tão longas, o que ajuda a explicar a inconsistência dos resultados observados em eventos de endurance prolongado.

Outro ponto fundamental diz respeito à forma de suplementação. Evidências indicam que o nitrato ingerido por meio de alimentos ou sucos naturalmente ricos em nitrato, como o suco de beterraba, apresenta maior potencial ergogênico do que o nitrato fornecido isoladamente na forma de sais. A matriz alimentar contém compostos bioativos, como polifenóis e antioxidantes, que parecem favorecer a biodisponibilidade do nitrito e a conversão eficiente em óxido nítrico. Além disso, a cinética de absorção e redução do nitrato parece ser mais favorável quando ele está inserido em um contexto alimentar. Estudos que utilizaram sais de nitrato frequentemente demonstram elevação dos níveis plasmáticos de nitrato e nitrito, mas sem correspondência clara em melhora do desempenho físico, o que limita sua aplicação prática como ergogênico isolado.

Por fim, a resposta ao nitrato também é modulada pelo nível de treinamento do indivíduo. De forma geral, pessoas menos treinadas ou recreacionalmente ativas tendem a apresentar respostas mais favoráveis à suplementação, enquanto atletas altamente treinados mostram efeitos pequenos ou inexistentes. Isso provavelmente ocorre porque atletas de alto nível já possuem elevada eficiência mitocondrial, maior densidade capilar e produção endógena de óxido nítrico mais otimizada, reduzindo o espaço fisiológico para ganhos adicionais. Em indivíduos menos treinados, o nitrato pode compensar parcialmente limitações na eficiência do uso de oxigênio, resultando em maior tolerância ao exercício e melhor desempenho em tarefas abertas. Assim, embora o nitrato tenha uma base mecanística sólida, seu efeito ergogênico é modesto, dependente do tipo de teste, da forma de suplementação e do perfil do praticante, sendo pouco provável que represente um fator decisivo em provas de endurance altamente competitivas.


Referências:

McMahon, Nicholas F et al. “The Effect of Dietary Nitrate Supplementation on Endurance Exercise Performance in Healthy Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis.” Sports medicine (Auckland, N.Z.) vol. 47,4 (2017): 735-756. doi:10.1007/s40279-016-0617-7

Poon, Eric Tsz-Chun et al. “Dietary Nitrate Supplementation and Exercise Performance: An Umbrella Review of 20 Published Systematic Reviews with Meta-analyses.” Sports medicine (Auckland, N.Z.) vol. 55,5 (2025): 1213-1231. doi:10.1007/s40279-025-02194-6


Autor:

Marcus Quaresma

Nutricionista, Especialista em Nutrição Esportiva pela ASBRAN, Mestre, Doutor e Diretor Científico da ABNE.

Deixe um Comentário